quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Tommy: o pós-modernismo expresso no Rock

A obra-prima da banda The Who que inovou a música e descreveu perfeitamente os anos 70

Marina Rosanese

É incabível alguém dizer que conhece The Who sem ter ouvido ao seu álbum Tommy (gravado em 1969) ou ter assistido ao filme de mesmo nome, lançado em 1975. Trata-se de uma história contada inteira por músicas de rock, todas de autoria da banda, sendo assim chamada de “ópera-rock” - a primeira da história da música – e que consagrou a banda, fazendo com que eles fossem uma das atrações mais esperadas do primeiro festival de Woodstock, que ocorreu no mesmo ano em que álbum foi gravado e lançado.

Originalmente, a história se passa no pós-Primeira Guerra Mundial, mas, para o filme, foi ambientada na Segunda Guerra. De maneira psicodélica, como apenas os anos 70 souberam oferecer, a ópera-rock conta a história de Tommy: um garoto que fica cego, surdo e mudo após ver sua mãe e seu padrasto assassinarem seu pai, o qual todos pensavam ter morrido na Guerra.

Ann-Margret, Roger Daltrey e Oliver Reed em
cena do filme Tommy (1975). Créditos: Universal Pictures
O álbum expressa todo o espírito transgressor da pós-modernidade. Assim como a pop arte de Andy Warhol criticava a sociedade consumista que transformava tudo em objeto que pode ser comprado (como demonstra em seus quadros das sopas Campbell ou da Marilyn multiplicada infinitas vezes), o filme destaca a figura de Marilyn Monroe como um objeto de desejo, e a utiliza como metáfora para as drogas alucinógenas da década de 1970. Nesta cena, Marilyn representa a “mulher” que o pastor - no filme interpretado pelo grande Eric Clapton - utiliza para curar as pessoas de quaisquer males. A música diz “Você fala sobre sua mulher, eu gostaria que você visse a minha. Toda vez que ela começa a amar, ela traz visão aos cegos”.

O uso de simbologias e valorização da imagem, característica típica do mundo pós-moderno, está fortemente expresso no filme. As pequenas esferas prateadas que preenchem os mísseis utilizados na Segunda Guerra são as mesmas bolinhas prateadas do Pinball, jogo em que o menino Tommy é mestre (embora seja cego, surdo e mudo), tornando-se, inclusive, o novo “Pinball Wizard”, título que antes pertencia ao homem que no filme é representado por Elton John. A música chamada “Pinball Wizard” e interpretada por Elton John foi um dos maiores sucessos do filme.

Tommy torna-se o mestre do Pinball e, após uma libertação mental, ele volta a ter seus sentidos. Dessa forma, Tommy passa a ser visto como um Deus pelos jovens da década de 1970 representados no filme, e torna-se o messias, o líder espiritual deles. Esse detalhe da história demonstra a característica da juventude pós-moderna de buscar novas ideologias, uma nova religião. No caso de Tommy, ele representa a figura de Jesus, que é muito utilizada e parodiada no filme. Ainda sobre os símbolos e objetos, os seguidores de Tommy compram produtos que acreditam que os tornarão o próprio Tommy, porque querem ser como ele. Quando têm suas expectativas frustradas por não conseguirem se tornar o novo messias, ficam revoltados e desistem da ideologia.
Elton John como o "Pinball Wizard" em Tommy (1975).
Créditos: Universal Pictures

Além de tudo isso, o filme deixa explícito o uso das drogas, o consumismo exacerbado, a futilidade contemporânea. Em uma das músicas, que no filme é cantada pela mãe de Tommy, interpretada pela linda Ann-Margret (símbolo sexual da época), demonstra-se a futilidade da sociedade, dizendo: “Aviões particulares (...), maiores plateias. (...) Mas de que adianta se meu filho é cego? Ele não pode ouvir a música ou aproveitar o que eu compro.”

O álbum marcou a história do rock n' roll, sendo o primeiro de seu estilo: um musical composto apenas por músicas de rock. Rock clássico e verdadeiramente bom, como só o guitarrista Pete Townshend, o baterista Keith Moon, e o vocalista Roger Daltrey do The Who sabem fazer.

Vale a pena assistir ou ouvir esta obra-prima do rock. Para começar, confira abaixo a cena da música I'm Free, a qual narra a parte da história em que Tommy volta a ver, falar e ouvir:

2 comentários:

  1. Bom texto! Só faltou uma menção aí ao grande John Entwistle, um dos maiores baixistas de todos os tempos.

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