segunda-feira, 19 de setembro de 2011

Foundations

A música de Kate Nash segundo uma visão literária 

Carolina Rodrigues

(Confiram a letra de Foundations para entender)



Créditos: myspace.com/katenashmusic
 Quinta à noite. Me pego sentada no sofá, novamente chorando por mais uma briga. Chorando; quem dera chorasse as mágoas de todas as brigas anteriores. Ao meu lado, você, vomitando tudo aquilo que te fez mal: bebidas e mais bebidas. Antes vomitasse todo o seu rancor. Quem sabe assim tudo ficasse bem. 

Quem sabe assim eu esquecesse todas as vezes que você me chamou de vaca, todas as vezes que você ignorou minhas histórias – fingindo escutá-las, mas só pensando no quanto elas são chatas. Quem sabe assim as humilhações em frente aos seus amigos parecessem elogios e a minha voz, que você tanto acha irritante, parecesse doce. 

Pois é... Cansei de escutar seus gemidos de bêbado ao pé do ouvido. Não dou a mínima. É só mais uma quinta. É só mais um erro que pecamos em persistir. Eu sei, eu sei, eu deveria resistir. Mas eu não consigo. É como se ainda houvesse amor naquele sofá sujo de resquícios de uísque e vodca e molhado de lágrimas cada vez mais salgadas. Talvez fosse um amor diferente, só nosso. Eu sei que não está certo e sei que deveria esquecer, mas eu não consigo. 

Decidi seguir seu conselho, quem sabe assim nos salvasse. Fui até a cozinha; no caminho, as fotos nas paredes: o casamento na praia, a lua de mel no Canadá, as tardes de domingo na fazenda e as nossas quintas, vezes felizes, vezes trágicas – no começo tudo era flores, agora tudo é vômito e lágrimas. 

Enfim, fui até a cozinha, peguei os limões que você tanto mencionava nas brigas. Será mesmo que eu precisava chupá-los? “Você é muito amarga!”. E apesar de ficar assustada, eu te provocava, era infantil e você ficava agressivo. E isso se tornou um ciclo constante em nossas vidas. Por quê? 

Voltei para o sofá. Você estava pálido; tudo que eu queria era te abraçar, te aquecer, te nutrir... Mas eu não consigo. Você estava me fazendo mal. A verdade é que eu não queria mais olhar na sua cara. Você vomitou no meu tênis, da mesma maneira como sempre vomita em mim todos os seus problemas, todos os seus medos, toda a sua falta de humor e sua conta negativa no banco. Talvez os limões fossem para você. 

Bem, resolvi te deixar lá até de manhã. Fazia frio, e eu não liguei o aquecedor de propósito. Você se tornou uma pessoa fria mesmo. Subi as escadas com os limões nas mãos. Apeguei-me a eles, porque, de repente, senti-me tão sozinha. Sentei na cama, rezei, “Deus do céu, espero não estar presa a esse cara”. 

Créditos: Divulgação
Olhei pras minhas mãos, percebi que elas já não seguravam mais as rachaduras na nossa fundação. Construímos uma vida, construímos uma casa, construímos um amor que agora se resumia a alguns limões à minha frente, os quais você tanto insistiu que eu chupasse por ser tão amarga. Amarga? É o que estou me tornando agora. As pequenas rachaduras desmoronaram e só sobrou pó. Será? Eu sei que deveria esquecer, mas eu não consigo. “Deus, eu não posso ficar incomodada com isso”. 

Desci as escadas. Você já dormia. Peguei uma faca. Cortei o limão. Levei-o até a boca, senti aquele gosto azedo e vivo. Percebi, então, o quanto eu era doce e morta, ao contrário do que você tanto dizia. Aquele nosso “até que a morte nos separe” teria mudado, de repente, para “até que o limão nos separe”? Eu queria partir, mas eu não consigo. Eu queria ficar ali, ao seu lado, mas eu não consigo. Me vi à beira de um precipício, pendurada, fazendo muita força para não cair - e me separar de você. Tudo que fiz foi enterrar essas e outras muitas quintas, dormir e esperar por uma sexta sem brigas, sem limões, sem vômitos e sem lágrimas: só com você e eu, como nos velhos tempos das fotos na parede.

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