quinta-feira, 15 de setembro de 2011

A fome de alguém sem língua

Amanda Lima

Ouça o texto. Leia a música.



Os novos dias eram velhos. O que buscava não era mais o que via em seu tempo, nem naquelas pessoas todas. Desejou voltar, mesmo sabendo que, inevitavelmente, isso lhe custaria alguns anos que foram, sim, preciosos. Aceitou ser verdade aquilo de poder voltar ao passado e tornar tudo diferente.

Olhou-se no espelho. Os cabelos artificialmente castanhos lhe agradaram. Vestiu a blusa de lã que sua mãe lhe dera, ignorou os fios puxados, a cor desbotada, e aproximou-se de sua imagem, tentando caçar outros detalhes que a visão dos quarenta e tantos anos não permitia a ela perceber de onde estava. Quase sentiu arrependimento ao notar que os anos causaram-lhe efeitos irreversíveis. A figura refletida era, para ela, simples sinal da passagem do tempo.

A sensação estranha que a perturbava deixava rastros no piso da sala enquanto ela dava passos preguiçosos. Espreguiçou-se, bocejou, coçou os olhos, passou as mãos no rosto com força e certo desprezo. Cogitou mudar-se para a capital, conseguir um novo emprego, deixar a bebida, tentar se reerguer daquele desânimo que se arrastava ao longo dos anos. Tentou buscar nas partes mais profundas de si a certeza de que isso daria certo, mas não conseguia acreditar. O destino era o seu maior rival. 

Já não conversava há tempos. Todo o diálogo deu lugar a tudo o que não era silêncio dentro de si. Seus pensamentos eram altos demais, por isso calava-se. Pensou não mais saber falar. Quis esbravejar qualquer frase sem sentido a sair flutuando pela varanda do apartamento, mas sua boca foi traidora. Tossiu. É assim o grito de alguém sem língua? Conteve as lágrimas que ameaçavam cair. Passou os dedos no pescoço para averiguar se tudo estava em seu devido lugar, e estava. 

Não adiantava, precisava de um gole. Andou a esmo até o primeiro boteco que encontrou, e fez do gole grandes copos. Tentou lembrar-se dos filhos, de quando fora a última vez que os vira, que conversaram. Fechou os olhos. Rodou, rodou. Fizera deles o seu pior e lamentou por não imaginar o que se tornariam. Torceu para que o destino lhes fosse justo. 

Sentiu-se cansada. Levantou-se e em dois tempos viu-se estirada no chão, em meio aos passos desajeitados de outros bêbados. Sentiu o arrependimento escorrer-lhe nas maçãs do rosto e o medo do que poderia ser dali em diante beliscar-lhe a nuca. Já não reconheceria os traços dos filhos. Mal sabia quais eram as suas feições. Ouvia as vozes, as palavras doces e inocentes daquelas pobres crianças. 

Apertou os olhos, esperando que sua força pudesse fazer tudo parar de girar e seu estômago deixar de incomodá-la. Sentia fome, mas não de algo doce. Sentia fome de si, de profundidade. Sentia-se rasa. Sentia fome por não ter língua.

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