segunda-feira, 22 de agosto de 2011

A poesia de Chico Buarque em prosa

Amanda Lima


Essa história está diferente - Dez contos para canções de Chico Buarque (Vários autores; Companhia das Letras; 264 páginas; 46 reais) é, como o título já denuncia, uma coletânea de dez contos inspirados em canções de Chico Buarque escritos por autores de características, nacionalidades e estilos diferentes. A ideia e a escolha dos escritores foi realizada pelo escritor, jornalista e editor Ronaldo Bressane.

Entre os grandes nomes que figuram no livro estão o moçambicano Mia Couto, Xico Sá, o gênio Luis Fernando Veríssimo, além de Cadão Volpato, João Gilberto Noll, André San'Anna, Carola Saavedra, Mario Bellatin, Rodrigo Fresán e Alan Pauls.
O desafio proposto foi o de escolher uma canção de Chico Buarque e transformá-la em um conto. O mais interessante é que o resultado não foi nada óbvio. Cada autor, com sua genialidade, criou uma comunicação inusitada entre o conto e a canção escolhida. Alguns representaram fielmente o que Chico retrata nas canções, enquanto outros usaram a música apenas como cenário ou pano de fundo.

André San'Anna buscou inspiração na música Brejo da Cruz e, no conto entitulado Lodaçal, fala com grande profundidade sobre os meninos que se alimentavam de luz. É um conto extenso e talvez cansativo, mas que reproduz com bastante exatidão o delírio das personagens. "... o bom do nada é que tudo tanto faz, (...). Tudo, no nada, é vida interior. Poesia isso?" (Trecho de Lodaçal).


Em Entrelaces, Carola Saavedra narra a discussão de um casal sobre as perspectivas dos dois. Mil perdões é a música que toca no aparelho de som no final do conto, fazendo com que a briga acabe.

Luis Fernando Veríssimo, autor de várias das minhas crônicas favoritas, não poderia ter escrito outra coisa senão um ótimo conto. O escritor recria com habitual bom humor o enredo de Feijoada Completa e se utiliza dos diálogos da própria música para criar o cenário de Pedro que, aos sábados, leva os amigos do futebol para casa, para a tradicional feijoada feita pela esposa Carolina. O autor soma ao cenário da canção a situação em que se encontra Carolina por querer deixar o marido.

Outros dois contos que destaco no livro são Olhos nus: olhos, de Mia Couto, e Um corte de cetim, de Xico Sá. O primeiro usa a canção Olhos nos Olhos para dar vida à história de uma mulher em luto pela separação do marido. A construção feita por Mia Couto é encantadora. "A vida apenas tem encontros; tudo o resto são descoincidências." (Trecho de Olhos nus: olhos).
Xico Sá se inspira em Folhetim e utiliza todo o seu palavreado de 'cara mais mulherengo do Ceará' para escrever o conto que gira em torno de uma mulher que desapareceu no carnaval. "Paudurescência sem limites." (Trecho de Um corte de cetim). Vale a pena.
Dentre as demais músicas escolhidas, estão Ela Faz Cinema (em O direito de ler enquanto se janta sozinho, de Alan Pauls), Carioca (em Carioca, de Cadão Volpato), As Vitrines (em A calça branca, de João Gilberto Noll), Construção (em Os fantasmas do massagista, de Mario Bellatin) e Outros Sonhos (em A mulher dos meus sonhos e outros sonhos, de Rodrigo Fresán).
Ronaldo Bressane, ao escolher dez escritores que não são do Rio de Janeiro, fez com que, intencionalmente ou não, vários olhares diferentes fossem lançados ao cenário carioca, sempre presente na obra de Chico. O resultado obtido trouxe à tona uma das principais características do compositor: a universalidade. Até porque os contos diferem muito uns dos outros, ao mesmo tempo em que se complementam.


O vídeo e todo o cancioneiro de Chico não me deixam mentir: existem por trás das canções diversas histórias a serem inventadas e reinventadas.

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